O Sol Nascente na Cidade Cinza
Imigração japonesa no Brasil completa mais de 100 anos. Estabelecidos,
em sua maioria, na Liberdade, o local é um verdadeiro parque gastronômico
A feira da Liberdade é uma das principais atrações turísticas do bairro da Liberdade Na saída do metrô Liberdade, a feira fica em lugar privilegiado para locomoção As típicas comidas chineses fazem sucesso entre os apreciadores da feira O rolinho primavera, o tempurá e o bolinho de bacalhau são os preferidos do público Aberto somente aos fins de semana, o Jardim Oriental preserva o paisagismo japonês Um dos pratos mais conhecidos da cozinha chinesa, o Yakissoba é campeão de vendas No bairro, várias lojas possuem sushis e sashimis para consumo em domicílio As opções para consumo em domicílio também são oferecidas pelos restaurantes
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“Não, não, não. Não estamos abertos”, falou uma senhora que não perdera o seu forte sotaque taiwanês. Em meio àquela rua sem saída e próximos à Capela das Almas dos Aflitos, só nos restou rezar para que algum proprietário de restaurante concedesse uma rápida entrevista. Mas era provável que até os aflitos tivessem problemas maiores que o nosso.

Poderia ser mais uma tarde fria e calculista de chuva horizontal, mas era um sábado ensolarado e suávamos em bicas. A reportagem se dividiu em dois grupos: um se encarregaria de conversar com as pessoas na rua; o outro tentaria contato com os proprietários ou responsáveis por alguns restaurantes e barracas com comidas orientais que pipocavam por todos os lados. No cruzamento das ruas Galvão Bueno e Praça Liberdade, o som de um violino se misturava às vozes de pessoas e ruídos de carros, numa caótica sinfonia urbana.

Na Rua dos Estudantes, dois pontos chamaram nossa atenção. O primeiro se tratava da barraca Sakura, especializado em culinária japonesa. Com trabalho quase industrial, os quase 10 funcionários se dividiam entre as frituras e o atendimento ao público. “A maioria dos nossos pratos é feita à base de camarão”, contou Jaqueline Campos, uma das cozinheiras da barraca Sakura. Uma rápida olhada nas estufas confirma isso: os pratos vão dos conhecidos bolinhos de carne e rolinho à primavera, a camarão frito, camarão empanado e tempurá (feito com camarão e vegetais).

Sonora

Características da gastronomia Oriental

Nenhum dos funcionários aparentava ter traços orientais. Pelo contrário: todos brasileiros. Assim como seus colegas de trabalho, Jaqueline aprendeu a cozinhar ali mesmo. “Minha mãe também trabalha nesta barraca. Ela me trouxe e tudo o que sei aprendi aqui.” Outro ponto importante: o patrão de Jaqueline é chinês, casado com uma japonesa. Tal qual a culinária, que exige a mistura de diversos ingredientes, estávamos diante de uma aparente mistura e intercâmbio cultural. Isso ficaria mais visível em um restaurante a poucos metros dali.

A Mussashi Yakissobateria é um imóvel com capacidade para 50 pessoas e, num esquema de fast-food, serve pratos das culinárias japonesa, chinesa e coreana. Calcula-se que mais de mil pratos de yakissoba são vendidos semanalmente, só na Liberdade. O restaurante também possui uma unidade no Centro, com capacidade para 200 pessoas. “Claro que servimos diversos pratos por uma questão de mercado: o yakissoba é o nosso carro chefe. Mas também acho que é característico do brasileiro essa mistura. Acho que acontece em todos os âmbitos, até mesmo na culinária”, respondeu José Anderson de Oliveira que há 4 anos trabalha no restaurante. Seu sotaque nordestino, mesmo que involuntariamente, confirmava sua teoria. “A maioria dos funcionários aqui, com exceção do seu Akira Matsuda (proprietário do local), são de famílias nordestinas. Por mais que sigamos a maneira oriental de preparo dos pratos, os ingredientes são genuinamente brasileiros. Mais fortes. O cardápio, por mais asiático que seja, carrega um pouco de nós brasileiros.”

Segundo José, os clientes do Mussashi são, em sua maioria, brasileiros. “As coisas se dissolvem aqui. Eu geralmente digo que a Liberdade é um grande tempurá brasileiro”, conclui.

Alguns clientes começavam a perder a paciência. A fila agigantava a cada minuto. Era hora de seguir caminho.

A outra face

A imigração japonesa no Brasil completou mais de 100 anos. Atualmente, a cidade de São Paulo abriga a maior colônia nipônica do mundo. Espalhados e bem integrados à cultura local, o brasileiro também incorporou hábitos orientais.

Estabelecidos, em sua maioria, na Liberdade, o local é um verdadeiro parque gastronômico. Reúne desde a cozinha tradicional até vertentes asiáticas diferenciadas como a coreana, taiwanese ou chinesa.

Mania em todas as grandes cidades brasileiras, a culinária japonesa conquistou admiradores por todos os lados. A integração é tamanha, que os especialistas em comidas japonesas, os Sushimen, são, em sua maioria, nordestinos.

E esta profissão é reconhecida. Mariel Souza é um destes exemplos característicos. Natural de Crato, interior do Ceará, é Sushiman em São Paulo há sete anos. “Não tenho o que reclamar. Sustento minha família e trabalho com gastronomia. Hoje, tenho carro e casa própria”, explicou.

Para a aposentada Maria Angela Yokoo, que mora em Mogi das Cruzes, a culinária nipônica ainda carrega certa tradição. "Sempre que possível, viajo para o Japão, porque quase toda minha família é de lá. É perceptível a diferença nos dois países. O tempero é diferente. Além disso, lá (no Japão) eles seguem muita a tradição, que para algumas famílias como motivo de orgulho.”

Ela conta que as famílias mantêm restaurantes há muito tempo no Japão. "Conheço restaurantes que trazem o nome da família por mais de 100 anos. A maneira como os pratos são servidos e preparados é quase única. Há todo um ritual a ser seguido: a maneira de se sentar, os condimentos na mesa, a luz, o ambiente de um modo geral”, finaliza Maria Angela. (colaborou Gabriel Valery e Michael Silva)

Expediente

Ana Carolina Cassiano - RA: 4911690
Gabriel Valery - RA: 5690982
Guilherme Iury Menegare - RA: 4916241
Guilherme Napolitano - RA: 514404
Michael Silva - RA: 4887548
Rômulo Cabrera - RA: 5891445