Os ciclos do Centro refletidos no Largo do Paissandú
Visões cíclicas atemporais da face mais complexa de São Paulo.
O Largo do Paissandú revela os diálogos urbanos e a diversidade histórica brasileira
Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, ponto central do Largo do Paissandú Ocupações frequentes assolam os prédios abandonados nos entornos do Paissandú A Galeria do Rock é palco histórico de reuniões de cultura alternativa em São Paulo Lanchonete Ponto Chic tem 96 anos de história. Na década de1920 foi abrigo de modernistas Encontro entre dois marcos da Capital. Ao fundo, mais prédios abandonados e ocupados Largo do Paissandú visto de dentro da Galeria do Rock. História e cultura se encontram Escultura Mãe Preta em frente à igreja. “E deu à Pátria Livre, em holocausto, os seios” Imagens barrocas de santos negros no interior da Igreja Nossa Senhora do Rosário
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As pombas são onipresentes na Região Central da maior cidade da América Latina, São Paulo. Os bandos são aparentemente nômades. Cada ave ao alçar voo cria em sua volta uma nuvem de poeira e lixo. O caos e a desordem do coletivo dos pássaros ordinários representam a metáfora do centro paulistano.

Considerados por muitos como pragas urbanas, outros as alimentam e cultivam certo apreço pela forma de vida livre. O voo. Prédios altos ao redor das pequenas praças, ocupações e ruinas, pequenas árvores como vasos opacos. Estes ambientes abrigam centenas delas. Aves ordinárias. Pombas paulistanas.

Pré-Cinza
O verde típico do Brasil anterior à invasão europeia com suas águas limpas e seres exaltados pela literatura mais elitizada do início do século XX. Povos indígenas, por vezes, ocupavam de formas completamente nômades as terras que ainda receberiam toneladas de concreto. A região do Largo do Paissandú certamente já se destacava nesta época. Ali havia um grande riacho chamado Yacuba que formava pequenos lagos. Outras nascentes completavam a perfeita ideia europeia arcadista de paraíso.

Terras tão produtivas que dispensam, neste momento, qualquer proximidade com as águas atlânticas. Estas repousam a 750 metros serra abaixo, um caminho sinuoso de mais de 70 quilômetros. Por este caminho os primeiros colonos invasores trouxeram o que seria a ruina da ordem e do progresso. A decadência dos povos indígenas veio em forma de cruz. Estes mesmos agressores estranhos com roupas pomposas e barbas enormes trouxeram elas. As pombas. Como uma falha delicadamente solucionada pelo Darwinismo, as pombas não andavam com outras aves em terras americanas. Ao chegar, não encontraram predadores naturais. Dominaram o ambiente. Adoraram o cinza.

Substituição
Agora São Paulo. A cidade da miscigenação. O encantamento e a violência dos europeus com as belas índias criaram gerações de mestiços. Depois vieram os negros. Em seguida mais europeus. Alemães, espanhóis e principalmente italianos (a quem os cidadãos devem seu sotaque). Os lagos e riachos de outrora deram lugar ao Distrito da República. Na transição do século XIX para o XX o lugar prospera como centro cultural do jovem país. Em 1870 as águas da região foram canalizadas. As pombas protagonizam com os seres humanos e os cavalos a habitação da região.

Mesmo com ocupação dita europeia, a principal construção da região é obra dos negros. Lá, trabalhadores recém-livres da escravidão construíram a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. A região, na década de 1920 apresentou uma explosão de produção cultural. Artistas de rua e trupes circenses se apresentavam e ajudavam na formação da identidade nacional.

Concomitante, não muito longe dali, acontecia a Semana de Arte Moderna de 1922 que mudou os rumos da cultura nacional. Na época espaços como o “Ponto Chic” e o “Café dos Artistas” reuniram grandes nomes do modernismo que escreviam vorazmente sobre o que ali acontecia. O palhaço Piolin (Abelardo Pinto, 1897-1973) foi um dos pioneiros e que mais fizeram sucesso na região. Em 1972, foi declarado o dia de seu nascimento como o Dia do Circo (27 de março).

Tempo e correria
Com o crescimento desordenado da capital paulista a degradação foi natural e progressiva. Os artistas deram lugar a prostitutas e moradores de rua. Os prédios construídos na década de 1960 e 1970 repousam abandonados. Edifícios largados são ocupados por moradores do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Periodicamente a região assiste violentas desapropriações. Policiais despejando moradores e suas crianças, aumentando o problema no déficit habitacional da grande São Paulo.

O lugar possui muitas faces. A que explode é a da degradação, da sujeira. Pela noite a iluminação é precária. O lugar se tornou uma grande passagem abandonada. Porém, como tudo que tange o Brasil, esta história é complexa e mutável. Hoje, a correria continua. Apesar de tais fatores negativos o Largo do Paissandu começa a mudar lentamente. A Galeria do Rock, grande expoente histórico da região, sempre foi palco remanescente da cultura local. Cada vez mais o aspecto marginal dá lugar à boa ocupação pública. Outro ponto de destaque é a galeria Olido que recebe exposições periódicas e ainda abriga o Museu do Circo desde 2008.

Iniciativas como a Virada Cultural ainda despertam nos moradores da cidade o desejo de ocupar e viver o centro. O evento é o segundo maior do mundo do gênero. São palcos e artistas das mais diferentes vertentes culturais que ocupam o centro. Cerca de 4 milhões de pessoas povoam as ruas da região durante 24 horas no mês de maio.

Relatos contemporâneos
“Algumas coisas estão mudando, porém o olhar público não volta para o Paissandú”, assim descreve Sonia Maria Pereira, 57 anos, membro da Irmandade da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Assista ao vídeo acima e ouça o podcast ao final da publicação, para mais relatos pessoais.

Espaços noturnos começam a ocupar a região como a casa Terra da Garoa, na Rua São João, que traz grandes nomes da música popular brasileira em shows intimistas. Recentemente aprovado pelos vereadores, o Plano Diretor Estratégico (PDE) busca ocupar edifícios abandonados da região. As propostas do atual prefeito Fernando Haddad com parceria estratégica com o arquiteto Nabil Bonduki, vem surtindo efeitos positivos. Ciclovias trazem outra visão de transporte para o centro caótico. Nesta onda, ainda está em período de experiência o projeto Centro Aberto. A ocupação no Largo do Paissandú instalou estruturas de madeira com cadeiras de praia, rodas de samba e outras atividades para incentivar os paulistanos a viver o centro. Contradições, ações, ascensões, declínios e misturas. Esta é a cara da maior e mais miscigenada cidade do País. Caminhando e progredindo com ações e pessoas que buscam mais do que apenas sobreviver.

A única constante são as fortes e insistentes pombas.

Sonora

Relatos das pessoas que construíram suas vidas no Largo do Paissandú
Largo do Paissandú em imagens
Expediente

Ana Carolina Cassiano - RA: 4911690
Gabriel Valery - RA: 5690952
Guilherme Iury Menegare - RA: 4916241
Guilherme Napolitano - RA: 5514404
Michael Silva - RA: 4887548
Rômulo Cabrera - RA: 5891445